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quinta-feira, 10 de setembro de 2015

O cemitério dos livros esquecidos {uma crônica}

 Lá está, aquele prédio antigo, aquele velho amigo que me acolheu nas horas de precisão, ou mesmo quando eu não precisava, lá eu ia por prazer. Lá o silêncio reinava, mas só até o meio dia. Porque era nessa hora que todos os corredores ficavam cheios, ocupados pela molecada que saia da escola. Se ouvia: Shhhh! para todos os lados. O ar era coberto pela inocência, a alegria contagiante que só uma criança é capaz de propagar tão facilmente. Os adultos se incomodavam, mas logo cochichavam o quão bonitinho aquele outro garotinho, debruçado na almofada, lendo um conto de fada. Aquela criançada trazia alegria, mas e agora, cadê eles?

 Depois de muitos anos aqui estou de volta, mas parece que estou em outro lugar. Independente do horário, o silêncio reina. Eu gosto do silêncio, mas também gostava de ver esse lugar cheio. Lembro-me que nessa mesma época em um pequeno espaço tinha duas mesinhas, cada uma com uma caixa preta, era o tal do computador. Ninguém ali ligava. Será essa a caixa, em novos formatos, que afastou a garotada daqui? Acho que sim. Mas será que se esqueceram do fascínio insubstituível que esse lugar trás? Acho que sim.

 Enquanto isso, vago em meio as prateleiras, cheiros se misturam, a maioria era de livro velho e poeira. Cada um com a sua história, não somente aquela escrita pelo autor, mas também aquela história que ele adquiriu ao passar de mão em mão. Cada um que pegou aqueles livros ganhou um pouco deles para si e ao devolve-los deixou neles também um pouco de si. Tantos sonhos e desejos envolvidos, compartilhados em pequenos pedaços de papel. Sinto-me mais pequena ainda em meio a grandiosidade simbólica que cada um daqueles livros possuí naquelas páginas.

 Uma vida inteira não seria suficiente para ler todos eles, ou simplesmente saber o que cada um esconde em suas trajetórias. Os livros são misteriosos, não acha? Mas essa nova geração, por sua maioria, parece não se importar tanto assim em desvenda-los. Espero estar enganada, mas o esquecimento desses livros me dói a alma. A cena de uma biblioteca pública, ao lado de uma escola pública, em uma avenida movimentada, vazia e esquecida, me dói. Perdeu-se com o passar dos anos o valor que esse paraíso tem. Não, não pode perder mais. Queremos ver nossas crianças empenhadas nas aventuras que os livros podem nos proporcionar. A leitura não só por obrigação, mas por prazer. A algazarra pelos corredores, porque ali também é lugar de diversão. Para que a biblioteca não seja apenas o cemitério dos livros que foram esquecidos.

Porque existem muitos cemitérios, de muitos livros esquecidos. 


domingo, 29 de março de 2015

A visão do óculos {uma crônica}


Lá estava na vitrine de uma sofisticada ótica o mais novo e descolado modelo de armação de óculos, era de dar inveja a todos os outros antigos que ali estavam. Há poucas horas exposto já era muito notado por todas as pessoas que ali entravam. Ele não entendia o porquê de tanta admiração, no entanto, na hora da compra outros eram escolhidos. O preço daquela armação era alto, geralmente as pessoas dão preferência pelos de menor preço.

Passados alguns dias, a armação já estava desiludida que encontraria alguém que a levasse para se aventurar mundo a fora. Até que em uma tarde ensolarada, uma mulher culta e vaidosa se encantou e a levou. O óculos tinha encaixe perfeito em seu rosto fino e delicado. Só o incomodava um pouco a quantidade de maquiagem que deslizava constantemente sobre a armação. Sendo levada para casa, a armação viu a quão luxuosa era a vida daquela mulher.

Muitas coisas belas refletiam sobre aquelas lentes. Mas ao saírem pelas ruas, outra coisa começou a incomodar, cada vez que ela passava em frente a alguma pessoa conhecida, empinava seu nariz para cima, ele ficava na diagonal, era desconfortável, mas era melhor do que ficar parado sob a prateleira, enquanto ele via os outros sendo levados.

Os dias do óculos eram sempre iguais, suportando muita maquiagem, desconfortável sobre o nariz empinado e muito luxo ao redor, naquele momento seu mundo era todo preto e branco. Não estava sendo tão incrível quanto imaginava e ela deveria estar pensando o mesmo, já que, dias depois o jogou no lixo.

Agora aquele óculos estava amedrontado em um saco escuro, fundo em meio a outras coisas que teriam sido julgadas como imprestáveis. Dias se passaram naquele sufoco, até que numa bela manhã ele sente alguém revirando o lixo à procura de algo. Então uma mão pequena, porém, grossa o tira dali.

Tratava-se de uma garotinha que o colocou em frente ao espelho e comemorou pelos objetos encontrados. Estranhamente, a partir daquele momento o mundo do óculos começou a ser colorido. Passou a enxergar as coisas de uma maneira mais generosa e positiva. Enquanto não servia mais para uma, era um grande presente à outra.

Aquela garotinha era muito pobre, vivia em meio a pessoas humildes que tinham apenas o suficiente para sobreviver, e olhe lá. Mas seus pequenos olhos transpareciam tanta esperança, tinham um brilho único que era encantador. Embora fosse uma armação enorme, ele se sentia muito confortável. Quando passavam perto de pessoas conhecidas era muito agradável a sensação do sorriso que se formava no rosto da pequena.

O óculos começou a perceber que os olhares para a mesma situação poderiam ter diferentes interpretações. E ele concluiu que de fato a beleza esta nos olhos de quem vê. O mesmo acontecimento pode ser visto de maneira positiva por alguns e negativo por outros. Por fim, o óculos descobriu que a felicidade é encontrada dentro da gente, não nas coisas exteriores e foi muito feliz por esse novo aprendizado , agora sentia que vivia a cada dia uma nova aventura.
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